Narrativário

Juliana Lama

Narrativário

Colagem digital a partir de pintura acrílica e fotografia, impressa sobre tela
2026

Elaborei essa obra juntando inspirações de dois livros, o Deslendário (que livro atual!!) e Sob os tempos do equinócio (sobre arqueologia na Amazônia central). Um dos pensamentos que me ocorreu lendo as duas escritas ao mesmo tempo foi: não é possível que com descobertas sobre tecnologias de ocupação de solo amazônico que geram terras perenemente férteis, há milhares de anos, as ocupações atuais, feitas envenenando e matando a biodiversidade, não se sintam burras (vou encontrar outras palavras para textos futuros, mas queria ilustrar para ti a força do meu pensamento naquele momento). Uma maneira de enxergar a realidade, um paradigma lucrativo e absurdo. Há tecnologias disponíveis para outro tipo de ocupação de solo, desenvolvidas por aqueles que foram violentamente considerados atrasados, deve haver interesse em reconhecer e torná-las abundantes. Entre “morubixabas castrados, deslendados / a procurar suas almas pela terra” , a arqueologia entrega algumas boas perguntas e caminhos, que almas amazônidas conhecem. A terra preta é extremamente fértil, geralmente encontrada junto a sítios arqueológicos pela Amazônia, o que evidencia a ocupação humana gerando tecnologias a favor da vida diversa. O título da obra proposta vem de pesquisas sobre as narrativas amazônicas, que são fonte de conhecimento para diversos povos, contrariando a palavra lenda, que distancia do presente e do pertencimento a importância do hábito de narrar. Talvez o “des” cumpra o mesmo objetivo de questionar a palavra “lenda”, porém gostaria de sugerir esta perspectiva propositiva, não destrutiva (tá tudo bem destruir também, acho importante, é só mais uma perspectiva). O desejo de morubixabas narrAtivados fica latente, insinuado. Em uma narrativa, o guaraná, guardado pelos Sateré-Mawé, é um fruto oriundo da morte inesperada de uma criança querida pelo povoado que teve seus olhos plantados segundo recomendações espirituais, seu legado de força e energia foi perpetuado. Um olhar da floresta se presentifica, uma vigia, um estamos de olho…

Juliana Lama